Acho mágico toda vez que o laboratório me envia o link para baixar as fotos digitalizadas do filme que enviei para revelar.
É surpreendente porque um mesmo filme pode reunir tempos muito distintos, é como se as fotos de filme pudessem retorcer tempo, e fazer ele passar de outra forma, reunindo coisas que não aconteceram juntas, mas que pela contingência de terem sido fotografadas num mesmo filme se agrupam. Talvez o tempo do filme seja menos sequencial e instantâneo como são as fotos de celular.
Com o filme há um tempo que é necessário aguardar, é preciso saber esperar.
Esse filme aqui por exemplo, desde o primeiro clique até ele terminar e ser revelado levou mais de um ano. Ser surpreendida por momentos que escolhi registrar tanto tempo atrás me encanta.
Essa demora no tempo que só o filme proporciona é muito gostosa. Pelo contrário do que alguns podem imaginar não fico ansiosa para “revelar logo as fotos e ver como ficaram”, sei que o tempo de “revelação” chegará, pode ser que demore, porque às vezes um filme pode durar bastante tempo, mas o tempo de ver as fotos chegará.
Acho que o filme nos proporciona lidar com os tempos das coisas, sair da rapidez, da pressa e da velocidade, saber esperar, mas também saber a hora de apostar. Tirar uma foto de filme exige um pouco mais de cálculo que as fotos digitais, que é só bater muitas fotos e escolher uma boa. No filme essa lógica não funciona, porque a quantidade de cliques é limitada, 36 cliques na melhor das hipóteses, quando o filme foi recém colocado na câmera.
Fotografar com filme e a psicanálise proporcionam alguma modificação na relação com o tempo, por isso me interesso tanto por ambos. Quem sabe fique como um projeto para um tempo futuro juntar essas duas coisas que mobilizam tanto o meu desejo.












